Britney Spears - ...Baby One More Time
Em 1998 o mundo mudou.
E grande parte dessa mudança deve-se ao vídeo e música que trouxeram Britney Spears para o estrelato. Falo de "...Baby One More Time", bombástico single desta inimitável artista nascida em Kentwood, Louisiana e 2ª expressão mais procurada no Google em 1999, logo a seguir a "millennium bug".
Esta música é, indiscutivemente, um dos objectos artísticos mais influentes dos últimos 50 anos. São várias as razões para tamanha importância e muitas são facilmente identificáveis como, por exemplo, a beleza do tema, a excelência da coreografia ou a criatividade da narrativa (tudo o que "afinal era só um sonho" é sublime). Mas gostaria de colocar a atenção noutros pormenores, quiça menos evidentes à primeira vista, mas que contribuíram com igual relevância para a imortalidade desta canção.
Comecemos pelo início. Antes da música se introduzir já se operava uma revolução na linguagem. O título da música não começa por uma palavra mas antes por reticências ("3 pontinhos", em linguagem mais informal). Ora, se em 1998 poucos eram os que utilizavam "..." (a não ser em determinados lugares da escrita em que se considerava o uso das reticências necessário), a partir daqui as reticências emanciparam-se e passaram a ocupar um detaque digno da sua condição. Hoje vemos 3 pontinhos no início das frases, no meio das frases, no fim das frases, a exprimir hesitação, a exprimir firmeza, a substituir pontos finais e a substituir pontos de interrogação. A libertação deste tipo de pontuação, minoritário e discriminado até então, deve-se a esta arrojada mas consciente escolha de Britney e da sua equipa criativa.
Outra coisa que importa salientar prende-se com o facto de Britney ter feito finca-pé para que a primeira ideia para o teledisco (que envolvia um mundo de animação mais acriançado e falso) fosse substituída por uma outra, mais de encontro aos problemas reais da sua vida e da dos seus fãs, e que deveria, por isso, ser filmada numa escola. Britney, numa tomada de consciência social absolutamente significante, quis alertar para os graves problemas que a circundavam, não os deixando de fora no vídeo para fingir que está tudo bem, como fazem outros artistas. Entre esses problemas, destaco 2 que Britney, corajosamente, opta por não esconder:
- a quantidade de alunos que estão na escola secundária com bem mais de 18 anos (muitos deles são mais velhos que a professora), que nos alerta para os problemas do ensino e da falta de motivação dos jovens para completarem os seus estudos.
- o facto de Britney ter a "Doença da Língua inchada" (doença rara, incurável, de origem desconhecida, que impossibilita a utilização de determinadas palavras mantendo a língua dentro da boca, nomeadamente as que têm um "L", e que pode levar, nos casos mais graves, à sufocação pelo discurso). Podemos ver manifestações dessa doença ao minuto 0.59, ao minuto 1.08, ao minuto 1.38, ao minuto 1.50, ao minuto 1.58, ao minuto 2.35, ao minuto 3.05 e ao minuto 3.25, que a precoce artista optou por não disfarçar, alertando para as dificuldades que os jovens sentem para se integrarem e para terem amigos quando têm que lidar com determinadas imperfeições.
Escusado será dizer que os lucros da venda do single reverteram, na totalidade, para a Fundação Spears, criada no mesmo ano com vista à descoberta de uma cura contra esta avassaladora doença.
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