quinta-feira, 26 de julho de 2012


Miúda - Eu Jogo Ténis

Estou de férias mas não cego nem surdo. Perante a inevitabilidade de me deparar com uma das mais belas pérolas contemporâneas da música nacional, senti uma urge de escrever.

Não é uma música que caiba no conceito deste arquivo porque é uma música de agora. Mas é um momento internetiano que merece lugar aqui, pela invulgar capacidade de, 5 minutos depois de o ver pela primeira vez, parecer que já cá está há 20 anos.

Falo-vos, como já perceberam, da versão acústica de "Eu Jogo Ténis", da grande revelação nacional "Miúda", banda liderada por uma rapariga que se diz chamar Mel. Depois de lançado o primeiro single "Com Quem Eu Quero" todos os que ouviram pensaram, "O que é isto, tão denso e profundo, tão rico lírica e instrumentalmente? Adorava ouvir um tema deles despido, mais intimista. Deve ser mesmo bonito."

E os "Miúda", fizeram-nos a vontade. Com a ajuda da RTP e da Punch Magazine (ou Punch Mega Zine, segundo Mel ao minuto 0.10) sentaram-se num jardim e encheram os nossos corações só com voz, iphone e uma corda de guitarra clássica.

Que momento este que nos foi presenteado, candidato a vídeo capaz de bater as visualizações de "Gisela (do Master Plan) dá porrada parte 1" e Gisela dá porrada parte 2" juntos.

São várias as partes que tenho de destacar:

- minuto 0.24 - "a dança do esqui". Aqui Mel, mandriona como sempre, decide fazer uma brincadeira com a audiência. Em vez de dançar, como seria de esperar, simulando que vai dar uma raquetada numa bola, decide fazê-lo fingindo que vai esquiar (embora de uma forma pouco ortodoxa, com os punhos fixos e só mexendo os ombros). Quando a vemos, pensamos que vai dizer "Eu faço esqui, dou a esquerda à bandeira, a direita à bandeira, esquerda e direita", mas ela supreende-nos e indica que o seu deporto é ténis, que Mel descreve correctamente como modalidade em que a bola vai e vem, sobe e desce, existem vantagens e em que se bate forte e fraco. A música é, como vemos, divertida e lúdica, o que se deve sempre louvar.

- minuto 1.26 - "a dança do futebol". O guitarrista, aproveitando um momento em que a super exigente e criativa guitarrada não é necessária, solta-se e dança também, por breves segundos mas de forma graciosa, balançando a cabeça para trás e para a frente, como quem nos diz "Eu jogo futebol, bola cabeça e pés, cabeça e pés." É uma dimensão só alcançável pelos virtuosos instrumentistas, que mesmo não falando, comunicam o que querem utilizando só o seu instrumento e a sua expressão corporal.

- finalmente, o minuto 2.25 - "o melhor para o fim". A música acaba com Mel a olhar de forma marota para a câmara, abanando ligeiramente o corpo e acabando numa pose misteriosa fazendo lembrar Cinha Jardim nos seus dias de maior sex appeal. Mel indica-nos assim, de forma subtil, que talvez haja algo nas entrelinhas da sua letra e nós, depois de ouvirmos 50 vezes a viciante música, finalmente percebemos que Mel se calhar nem gosta muito de ténis, ela gosta é de sexo. E quando nos apercebemos, levantamo-nos e aplaudimos esta miúda, que teve a coragem para falar de um tema que ninguém ousa abordar (sobretudo no mundo da música) e fazendo-o com tanto requinte.

Se o Zeca Afonso fosse vivo, choraria certamente. Eu não consigo parar de o fazer.

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